Um Brasil cada vez mais desigual

Paulo Roberto Sampaio


Tribuna da Bahia, Salvador
22/08/2017 19:44

   

O milionário salário recebido por um juiz de Sinop, em Mato Grosso, de "irrelevantes" R$ 500 mil em julho, acabou despertando o país para uma realidade que cada dia indigna mais o trabalhador brasileiro, aquele que dá duro de sol a sol ou vira a noite para levar o pão para casa e vê seu salário minguado ao fim do mês e uma aposentadoria cada vez menor e mais distante de chegar. 

Isso enquanto continuaram a proliferar em diferentes setores da administração pública federal a que se imaginava extinta classe dos marajás, assim apelidados pelo então presidente Collor, quando ainda candidato - depois de eleito, claro, tudo mudou, sendo ele o primeiro a se banquetear com o dinheiro público. Isso sem o menor controle e muito menos pudor. 

Agora, a presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, exige dos tribunais de todo o País que informem o salário de todos os seus juízes. Uma atitude digna da magistrada, que mereceria todos os aplausos, não acabasse revelando um absurdo inominável: e esse tipo de controle já não existe? Como não existe? É preciso ser pedido formalmente pela senhora presidente do STF para se saber quanto ganham os senhores juízes e integrantes da casta da Justiça? Ou de qualquer outra no Brasil, paga com o dinheiro público?

É de estarrecer. Como prevalece a esbórnia nesse país, num verdadeiro achincalhe com a classe trabalhadora. Até porque, ninguém duvide: com pedido ou sem pedido, isso vai dar em nada, de novo! E o povo vai continuar bancando esta conta, como sempre.

Povão, aliás, que já foi convidado a pagar mais uma conta, vendo o salário mínimo do próximo ano encolher em R$ 10, para ajudar a equilibrar as contas públicas. Pode não parecer muito para você, mas é um litro de leite a menos por semana na mesa de quem já vive com um orçamento estrangulado, para alimentar as crianças. 

E essa discussão nos arremete a Reforma da Previdência, que segue meio letárgica, mas que deve voltar à mesa de discussões tão logo o Planalto ganhe musculatura política para o embate. E sem que me coloque contra a dita cuja, gostaria apenas de reunir alguns números para que possamos refletir o quanto ingrato e injusto é o modelo previdenciário brasileiro. 

A média de aposentadoria no setor público no Brasil, onde gravitam os marajás de Brasília, é de R$ 9 mil, isso focando só no executivo. São os bens pagos funcionários dos ministérios, das autarquias e das muitas secretarias. No Judiciário, essa média salta par R$ 25 mil, indo para R$ 28 mil no Legislativo e ficando acima de R$ 30 mil no Ministério Público.

De estarrecer, não? Pior é quando se estabelece um paralelo com o setor onde está a grande maioria dos assalariados, dos que recolhem para o INSS. Daquele trabalhador brasileiro que acorda com o dia raiando, se espreme num transporte público deficiente, dá duro pelo menos oito horas por dia, muitas vezes trabalhando em situações insalubres e indignas, para receber uma aposentadoria média de R$ 1,6 mil. 

Com isso, se você gosta de números, chegamos a um dado estarrecedor: o setor público gasta, anualmente, R$ 115 bilhões para pagar um milhão apenas de aposentados. Eu disse um milhão somente.  Já para pagar a sofrida aposentadoria dos 33 milhões de brasileiros, que não tiveram a sorte de integrar essa elite e têm de recorrer ao INSS, a União gasta R$ 500 bilhões.   

E atente para mais esse dado: o deficit acumulado do setor público nos últimos 15 anos, aquele dos salários milionários, somou R$ 1,3 trilhão para atender apenas a 1 milhão de privilegiados, enquanto o deficit do setor privado ficou em R$ 450  bilhões, 1/3 apenas, e isso para atender 33 milhões de aposentados, ou seja, 30 vezes mais brasileiros. E são esses que caminham para pagar a conta de mais um desmando com as contas públicas.

Daí concluo: e por que não se estabelecer um teto máximo de aposentadoria para todos os trabalhadores, independentes de que casta integrem? Seria, no mínimo, mais justo, evitando penalizar apenas os que menos ganham e menos têm.


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