O apoio a um ditador

Adilson Fonsêca


Tribuna da Bahia, Salvador
27/07/2017 00:02

   

O que justifica um partido político que se diz defensor da democracia apoiar uma ditadura nitidamente reconhecida internacionalmente. E o que justifica ainda mais, a presidente desse mesmo partido vir a público discursar em apoio a um ditador e permitir (ou mesmoredigir) um documento oficial em que reconhece as arbitrariedades ditatoriais desse país como normais.

O País, e aqueles que defendem de fato a democracia, qualquer que seja o posicionamento político-partidário, devem ter ficado estupefato com o resultado do Foro de São Paulo, onde partidos de esquerdas da América Latina, e no nosso caso o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), corroboraram as ações do ditador venezuelano Nicolas Maduro.

A ditadura de Nicolas Maduro está tão explícita que a decisão de apoiá-la, além de corroborada foi enfatizada em discurso pela presidente do PT, a senadora Gleisi Hoffmann conseguiu deixar boquiaberto aqueles setores mais moderados da esquerda brasileira. Não houve reações de apoio nas redes sociais, apesar das inúmeras críticas. Talvez vergonha. Talvez prudência de não se expor tanto. 

Em Boa Vistam capital de Roraima, e em Manaus, capital do Amazonas, milhares de venezuelanos perambulam pelas ruas das duas cidades pedindo esmolas. Ali estão fugindo da ditadura na Venezuela. Preferem estar ali como mendigos, mas livres, do que no seu país de origem, onde além da repressão policial do Governo Maduro, enfrentam a fome e o desabastecimento.

Quem fica em Caracas, capital da Venezuela, convive diariamente com protestos nas ruas, com mortes protagonizadas pelas milícias contratadas pelo governo, e com a repressão de todos os que pensam e não agem de acordo com a cartilha bolivariana de |Nicolas Maduro. O país caminha para uma guerra civil em um governo que se mantém à custa da sustentação que lhe é dada, por enquanto, pelas Forças Armadas, e do cooptação, a preços exorbitantes, das milícias que garantem, à força, a ordem pública.

A decisão do Tribunal Supremo de Justiça, máxima corte venezuelana, de assumir as funções do Parlamento, de ampla maioria opositora, já provocou até mesmo um racha na base do governo, ante a violência das ações governamentais, que evidenciam as várias violações da ordem constitucional e da própria Constituição do País.

O país que já esteve entre os 10 maiores produtores de petróleo no mundo hoje é o 11º em produção, com pouco mais de 2 milhões e 650 mil barris diários, mas que por anos envolvidos em corrupção e desmandos, não consegue, com os petrodólares, ter o mínimo de recursos para prover a população do mínimo de sustento, inclusive de alimentos e gêneros de primeira necessidade.

No resultado Don Foro, de São Paulo, a esquerda brasileira subscrita pelo PT, PC do B e PDT, assinaram em Manágua, capital de Nicarágua, a resolução final do 23.º Encontro do Foro de São Paulo, em que qualificam o ditador Nicolas Maduro, não como um ditador, mas sim como “vítima do imperialismo e de seus lacaios”.

E a presente ao encontro, Gleisi Hoffmann fez questão de ressaltar o “apoio e solidariedade” ao governo do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), seus aliados e ao presidente Nicolas Maduro “frente à violenta ofensiva da direita contra o governo da Venezuela”. Nenhuma palavra ou referência ao ataque ao parlamento promovido por militantes chavistas, ou às denúncias de violência praticada pelo aparato militar oficial do Estado.

O apoio à ditadura é tão explícito que dispensa maiores comentários. Fatos e palavras dizem por si só.

Adilson Fonsêca é Jornalista 

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